segunda-feira, 17 de julho de 2017

Leituras de verão

 


   Das muitas edições nos escaparates das livrarias, deixamos aqui duas sugestões de leitura para este verão:

   Vinte anos após o sucesso de O Deus das Pequenas Coisas, vencedor do Booker Prize, surge o tão aguardado segundo romance de Arundhati Roy. Em O Ministério da Felicidade Suprema, a autora dá voz a heróis improváveis e almas feridas que encontram redenção no amor, tendo como plano de fundo o subcontinente indiano, desde os bairros superlotados da Velha Deli e os centros comerciais reluzentes da nova metrópole às montanhas e os vales de Caxemira. O regresso de Arundhati Roy à ficção tem sido destacado pela imprensa internacional como o acontecimento literário do ano. O Ministério da Felicidade Suprema é um dos mais aguardados romances da história recente da literatura, estando já a ser traduzido para 29 línguas.  
   Considerado o livro revelação do ano, o romance de Paolo Cognetti parte da experiência autobiográfica do autor, ao ter fugido para as montanhas dos Alpes para escapar a uma depressão. Paolo Cognetti descreve as paisagens no registo fascinante de quem conhece a montanha. Mas não se fica pelo deslumbre da paisagem, atribuindo-lhe, por vezes, uma beleza sombria, ácida, que não infundia a paz mas essencialmente força e alguma angustia. As Oito Montanhas é um livro magnético, que explora ligações acidentadas mas graníticas, a possibilidade de aprender e a procura do nosso lugar no mundo.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Sabemos O Que É Um Livro?


Edward Hopper

Lembro-me de que, em Paris, à entrada de um alfarrabista para os lados de Notre-Dame, vi copiado o início do poema que Walt Whitman dedicou “a um estranho”. E os versos de arranque dizem o seguinte: “Estranho que por mim passas! não sabes com que/ desejo ardente meus olhos te fitam.” Os estranhos somos nós, os leitores, os possíveis leitores ou os que não chegamos a sê-lo, pois tantas vezes passamos ignorando o que os livros nos dedicam e a longa espera, mesmo se falhada, que fazem por nós. Falar de indústria a propósito dos livros é um palreio escasso, quando não absurdo. Nos livros interessa não a sua materialidade mas a pré-história que a contamina. Um livro é um enigma como as pirâmides do Egito. É um laboratório em combustão. Uma saída de emergência. Um clube de socorro a náufragos. Um intercomunicador entre silêncios. Um lança-chamas. Um abrigo de floresta. Um trilho mais adiante. 

José Tolentino Mendonça (In) E Revista do Expresso, 10 Junho 2017 


sábado, 10 de junho de 2017

Há Palavras Que Nos Beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Poesias Completas & Dispersos, Alexandre O'Neill, Assírio & Alvim, 2017.


50 anos de Cem Anos de Solidão


Fotografia de Daniel Mordzinski


"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo."

Gabriel García Márquez , Cem Anos De Solidão, Ed. Dom.Quixote

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A Biblioteca à Noite



Alberto Manguel, escritor, tradutor e ensaísta argentino, fala sobre como sua biblioteca imaginária tem sempre um texto a sua disposição. E quando lhe faltam palavras é nessa biblioteca secreta, que habita sua imaginação, que ele encontra resposta para seus desejos e suas angústias.

"Noites há em que sonho com uma biblioteca inteiramente anónima em que os livros não têm títulos nem ostentam autores, formando uma corrente narrativa contínua. Nessa biblioteca, o herói d’«O Castelo» embarcaria no Pequod, em busca do Santo Graal, acostaria numa ilha deserta e, usando fragmentos dados à costa, reconstruiria a sociedade a partir das suas ruínas, relataria o seu primeiro encontro centenário com o gelo e recordaria, em penoso pormenor, como se recolhia cedo à cama."


A Biblioteca à Noite, Alberto Manguel, Ed. Tinta da China, 2016.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Recensão dos Sonetos Completos de Antero de Quental - Expresso



SONETOS COMPLETOS
Antero de Quental

"Antero de Quental (1842-1891), figura mítica e romântica do Portugal oitocentista, filho e neto de liberais e de mãe muito religiosa, viveu quase sempre dividido entre esses dois mundos e disso deu conta em poemas, cartas e muitos outros textos. Num Portugal atrasado e pobre, ousou, pensou, combateu, amou, sempre com a mesma alta postura ética. Foi sobretudo um poeta. E como tal reconhecido por leitores alemães, espanhóis, russos, franceses, ingleses, italianos, suecos. A Livraria Artes & Letras, de Ponta Delgada, terra natal de Antero, quis assinalar o nascimento, a vida e a obra de um dos “Vencidos da Vida”, organizador das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, com a publicação desta cuidada edição dos “Sonetos Completos”. Para tal convidou Ana Maria Almeida Martins, especialista na obra do “poeta das ideias”, autora do prefácio, que recupera a edição de 1886, por respeitar integralmente o critério de Antero de Quental. A luz, paixão e fogo que vibram na poesia de Antero, mormente nos Sonetos, dão bem a medida de uma aspiração que o acompanhou no tempo que vai da redação à revisão e publicação dos mesmos, aspiração essa temperada por um filtro metafísico que eclode sistematicamente nos versos e os satura de uma mescla de sentir e pensar, de compulsão e contenção, como não podia deixar de ser num homem cujas características sempre foram essas mesmas, quer enquanto indivíduo introspetivo quer enquanto cidadão interventivo. Para o autor, os Sonetos constituíam uma espécie de autobiografia espiritual, o que terá induzido uns quantos a olhar para a sua poesia como um mapa dos seus tormentos existenciais, amorosos e outros, chegando mesmo a entender a reflexão metafísica e o pessimismo ali presentes como prenúncio do dia fatídico. Felizmente, outros tantos leitores assinalaram, também desde os primórdios, o quanto a poesia anteriana tem, como disse o correligionário Eça de Queirós, dessa “coisa estranha e rara – as dores de uma inteligência”. Uma inteligência dividida entre eros e tanatos. Uma poesia das coisas que se insinua, lenta e musical, no leitor. “Deixá-la ir, a vela, que arrojaram/ Os tufões pelo mar, na escuridade,/ Quando a noite surgiu da imensidade,/ Quando os ventos do Sul se levantaram…// Deixá-la ir, a alma lastimosa,/ Que perdeu fé e paz e confiança,/ À morte queda, à morte silenciosa…”. Razão tem por isso Eduardo Lourenço quando assinala que não há na nossa literatura poeta tão naturalmente universal como Antero. “É como se estivesse só no Universo, ilha pura, sem qualquer arquipélago.”"

CARLOS BESSA
in Expresso, Agosto 2016

quarta-feira, 17 de agosto de 2016


          Soneto 5 

          As horas que em terno ofício emolduraram
          Essa face gentil onde o olhar se demora
          Hão-de ser a tiranas de si mesmas, as horas,
          Como da fealdade que a perfeição supera.
          Pois não repousa o Tempo, antes guia o Verão
          Ao temível Inverno, para aí o lograr;
          A seiva enregelada, as folhas sem fulgor,
          Soterrada a beleza, e em vez, desolação.
          Assim, não fora a essência do Verão conservada,
          Líquida prisioneira entre vítreas paredes,
          O fruto da beleza por ela era roubado
          E nem memória havia de beleza que fosse.
             Mas a flor, no Inverno, perde só a aparência,
             Sobrevivendo, doce, o que lhe deu substância.

            31 Sonetos, William Shakespeare, Relógio d'Água, 2015

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Aquela Ilha Esquecida



“Aquela Ilha esquecida
Que eu habito adormecida
Que, à noite, eu vou habitar;

Aquela Ilha encantada
Que não se encontra de dia,
Pois fica na madrugada;

A Ilha não descoberta,
Onde a criptoméria aberta
Espalha em volta o luar;

A Ilha desconhecida
Que pelos caminhos do sonho
Se mostra a quem a buscar.

Áquela Ilha distante,
Não há ninguém que se afoite…

Aquela Ilha esquecida
Que só tem um habitante:
Eu que lá vivo de noite…”  


(In) Antologia Poética, Natália Correia, D.Quixote, 2013

quinta-feira, 28 de julho de 2016

D.Pedro IV- São Miguel, 10 de junho de 1832


 “Minha querida Maria. Recebi a tua cartinha de 10 de maio escrita um pouco mal para a tua idade e adiantamento. Parece-me que tu não tens cuidado muito de estudares, e enquanto Mamam não me mandar dizer que tu te aplicas como no meu tempo eu não deixarei de te mostrar sempre que tenha ocasião o meu desprazer: quando tu, minha filha, chegares a uma idade mais avançada, tu não deixarás de conhecer que eu tinha razão de te desejar ver instruída, o efeito de não ter recebido uma educação conveniente eu tenho sentido, tudo que tenho feito tem sido porque Deus me tem favorecido, eu não quero que tu me julgues para o futuro um pai descuidado de tua educação, antes quero que me tenhas por severo.
            O amor que te tenho, minha querida filha, é que faz falar-te tão claro, eu espero que tu estudes d’ora em diante como convém a quem tem que reger uma Nação que precisa de bons exemplos e de uma rainha assaz instruída (…)”.

Carta de D. Pedro IV, rei de Portugal e Imperador do Brasil, a D. Maria II

(In) D.Pedro IV, Paulo Rezzutti, Casa das Letras, 2016. 

segunda-feira, 25 de julho de 2016

"Doce Carícia"

   Amory Clay, 1928
       
        O romance Doce Carícia assume-se como uma cativante autobiografia ficcional da autoria de William Boyd acerca da inesquecível Amory Clay.
             A obra centra-se na figura de Amory Clay, cujo trajeto fora marcado, entre diversos aspetos, por momentos fulcrais do século XX: “Amory Clay recomeçara a fotografar e era paga para isso-, mas era estranho estar na América enquanto se travava uma guerra Europa”. Nascida na década que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, a protagonista da obra em questão recebeu um nome andrógino por parte do seu pai que ficara desapontado pelo sexo do bebé, anunciando-o como masculino. No entanto, Amory não adotou uma atitude de submissão, tendo-se assumido como mulher e rejeitado os limites que lhe impunham. Apaixonada pela fotografia, dedicou-se ao registo da sua própria versão dos acontecimentos, além de que circulou entre Londres e Nova Iorque na qualidade de fotojornalista e de jornalista de moda: “Depressa percebi que não era uma fotógrafa de moda; examinava uma vez e outra as minhas fotografias para a American Mode e não via senão poses rígidas, falsas e inibidas- mediocridade, em suma. As poucas fotos informais que consegui fazer com as modelos, enquanto elas mudavam de roupa, quando iam buscar um café ou quando ficávamos à conversa o fim da sessão, pareciam-me mil vezes mais vivas”.
A audácia apresenta-se como uma constante da personalidade de Amory, não temendo arriscar tudo. O seu desejo desenfreado de adquirir novas experiências levou-a a conhecer a decadência do período histórico que vivenciou. William Boyd, o autor de Doce Carícia nasceu no Gana, mais propriamente, em Acra, tendo desempenhado em Oxford o cargo de professor de inglês e literatura. Atualmente é membro da Sociedade Real da Literatura Inglesa, passando grande parte do seu tempo em duas regiões distintas: Londres e França.
Neste romance, o leitor depara-se com uma personagem que se reveste de uma vibrante, dinâmica e forte personalidade.


Doce Carícia , William Boyd, D.Quixote, 2016