sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Um Simples Pensamentos



UM SIMPLES PENSAMENTO

É a música, este romper do escuro.
Vem de longe, certamente doutros dias,
doutros lugares. Talvez tenha sido
a semente de um choupo, o riso
de uma criança, o pulo de um pardal.
Qualquer coisa em que ninguém
sequer reparou, que deixou de ser
para se tornar melodia. Trazida
por um vento pequeno, um sopro,
ou pouco mais, para tua alegria.
E agora demora-se, este sol materno,
fica contigo o resto dos dias.
Como o lume, ao chegar o inverno.


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos últimos Três Séculos de Antero de Quental



Causas da Decadência dos Povos Peninsulares é um texto ímpar na cultura portuguesa. O ainda jovem Antero tinha já estruturada uma visão do mundo altamente consciente das diferenças fundamentais que separavam a Ibéria da modernidade, à época a implantar-se e a crescer desafogadamente no Centro e Norte da Europa. O filósofo serve-se de uma linguagem de manifesto porque pretende intervir na sociedade acordando-a para as realidades que os novos tempos impunham. Daí que, por vezes, o estilo algo bombástico, panfletário mesmo, tenha irritado alguns espíritos do seu tempo. Mas o apaixonado Antero dirigia-se oralmente ao seu público e essa marca ficou nítida na versão escrita que depois deu à sua conferência. Não haja, porém, dúvida de estarmos perante um grande clássico da nossa história cultural. 

Onésimo Teotónio Almeida

Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Três Últimos Séculos, Prefácio de Onésimo Teotónio de Almeida, ed. Artes e Letras, 2017

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Outono

                                                           Maçãs, Paul Cézanne

Uma das macieiras estava num estado lastimável, muitos dos ramos estavam mortos, parecia rígida e sem vida, mas podei-a no começo do verão, nunca tinha feito antes, e entusiasmei-me muito, cortei mais e mais sem ver como ficava (...). Aniquilada, foi a palavra que me veio à cabeça. Agora os ramos cresceram, cheios de folhas, e está carregada de maçãs. Foi a experiência que adquiri ao trabalhar no jardim, não há nenhuma razão para se ser cauteloso ou ter medo de alguma coisa, a vida é robusta, como que jorra em cascata, cega e verde, e por vezes mete medo, porque nós também vivemos, mas sob uma espécie de circunstâncias controladas, que nos fazem ter medo do que é cego, selvagem, caótico, que se ergue para o sol e que a maior parte das vezes é belo, mas de uma forma mais profunda do que o visual ... 

 No Outono", Karl Ove Knausgard, Relógio D'Água, 2016 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Leituras de verão

 


   Das muitas edições nos escaparates das livrarias, deixamos aqui duas sugestões de leitura para este verão:

   Vinte anos após o sucesso de O Deus das Pequenas Coisas, vencedor do Booker Prize, surge o tão aguardado segundo romance de Arundhati Roy. Em O Ministério da Felicidade Suprema, a autora dá voz a heróis improváveis e almas feridas que encontram redenção no amor, tendo como plano de fundo o subcontinente indiano, desde os bairros superlotados da Velha Deli e os centros comerciais reluzentes da nova metrópole às montanhas e os vales de Caxemira. O regresso de Arundhati Roy à ficção tem sido destacado pela imprensa internacional como o acontecimento literário do ano. O Ministério da Felicidade Suprema é um dos mais aguardados romances da história recente da literatura, estando já a ser traduzido para 29 línguas.  
   Considerado o livro revelação do ano, o romance de Paolo Cognetti parte da experiência autobiográfica do autor, ao ter fugido para as montanhas dos Alpes para escapar a uma depressão. Paolo Cognetti descreve as paisagens no registo fascinante de quem conhece a montanha. Mas não se fica pelo deslumbre da paisagem, atribuindo-lhe, por vezes, uma beleza sombria, ácida, que não infundia a paz mas essencialmente força e alguma angustia. As Oito Montanhas é um livro magnético, que explora ligações acidentadas mas graníticas, a possibilidade de aprender e a procura do nosso lugar no mundo.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Sabemos O Que É Um Livro?


Edward Hopper

Lembro-me de que, em Paris, à entrada de um alfarrabista para os lados de Notre-Dame, vi copiado o início do poema que Walt Whitman dedicou “a um estranho”. E os versos de arranque dizem o seguinte: “Estranho que por mim passas! não sabes com que/ desejo ardente meus olhos te fitam.” Os estranhos somos nós, os leitores, os possíveis leitores ou os que não chegamos a sê-lo, pois tantas vezes passamos ignorando o que os livros nos dedicam e a longa espera, mesmo se falhada, que fazem por nós. Falar de indústria a propósito dos livros é um palreio escasso, quando não absurdo. Nos livros interessa não a sua materialidade mas a pré-história que a contamina. Um livro é um enigma como as pirâmides do Egito. É um laboratório em combustão. Uma saída de emergência. Um clube de socorro a náufragos. Um intercomunicador entre silêncios. Um lança-chamas. Um abrigo de floresta. Um trilho mais adiante. 

José Tolentino Mendonça (In) E Revista do Expresso, 10 Junho 2017 


sábado, 10 de junho de 2017

Há Palavras Que Nos Beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Poesias Completas & Dispersos, Alexandre O'Neill, Assírio & Alvim, 2017.